Canetas de emagrecimento: o que os estudos mostram e o que eles não prometem
Os números que você vê nas redes vêm de estudos reais. Só que média de estudo não é promessa de resultado, e o que vem junto da medicação importa tanto quanto ela.
Por Dra. Sayure Shiramizu, CRM-SP 145.735 30 de julho de 2026 3 min de leitura
Em resumo
- Nos estudos de referência, a perda média de peso foi de cerca de 15% em 68 semanas com semaglutida e de até 21% em 72 semanas com tirzepatida, contra 2% a 3% com placebo.
- Média é o centro de uma faixa larga: parte das pessoas perde muito mais, parte perde bem menos, e isso não é falha de esforço.
- Efeitos gastrointestinais foram os mais comuns e levaram uma parcela dos participantes a interromper o tratamento.
- A medicação foi testada junto de orientação alimentar e atividade física, nunca sozinha.
A pergunta que mais chega ao consultório
"Doutora, essa caneta funciona mesmo?" É a pergunta que mais escuto, e ela merece uma resposta honesta: sim, os medicamentos da classe dos análogos de GLP-1 funcionam, e os estudos que sustentam isso são grandes, bem conduzidos e publicados nas revistas médicas de maior peso do mundo.
O problema não é a eficácia. É o que se entende por "funcionar". Nas redes sociais, o número vira promessa. No consultório, o número é ponto de partida de uma conversa muito mais individual.
O que os estudos realmente mediram
O estudo STEP 1 acompanhou 1.961 adultos com obesidade, sem diabetes, por 68 semanas. Quem recebeu semaglutida 2,4 mg por semana perdeu em média 14,9% do peso; quem recebeu placebo perdeu 2,4%. Metade dos participantes do grupo da medicação perdeu 15% ou mais do peso corporal.
O estudo SURMOUNT-1 acompanhou 2.539 adultos por 72 semanas com tirzepatida, a substância por trás de um dos nomes comerciais mais comentados hoje. A perda média foi de 15,0% na menor dose e de 20,9% na maior, contra 3,1% no placebo. Na dose mais alta, 57% dos participantes perderam 20% ou mais do peso.
São resultados expressivos. Antes dessa geração de medicamentos, nenhum tratamento clínico chegava perto disso.
O que esses números não dizem
Média é o centro de uma faixa. Dentro daqueles 20,9%, existe quem perdeu 35% e existe quem perdeu 6%. As duas pessoas tomaram a mesma medicação, na mesma dose, pelo mesmo tempo.
Isso não é falta de empenho. É biologia individual: composição corporal de partida, sensibilidade à insulina, histórico de dietas, sono, uso de outras medicações, função da tireoide, fase hormonal. É exatamente por isso que eu investigo antes de prescrever.
Os estudos também registraram o outro lado. Os efeitos adversos mais comuns foram gastrointestinais (náusea, vômito, diarreia, constipação), em geral leves a moderados e concentrados na fase de aumento de dose. Ainda assim, entre 4% e 7% dos participantes precisaram interromper o tratamento por causa deles, contra 2,6% no placebo.
E há um detalhe que quase nunca aparece nas redes: em todos esses estudos, a medicação foi usada junto de orientação alimentar e atividade física. Nunca sozinha.
Para quem esses estudos foram desenhados
Vale saber quem participou: adultos com índice de massa corporal igual ou maior que 30, ou igual ou maior que 27 quando já havia uma complicação relacionada ao peso. Nos dois estudos citados, pessoas com diabetes foram excluídas; elas foram avaliadas em pesquisas separadas.
Ou seja: esses resultados descrevem o tratamento de uma doença crônica chamada obesidade. Não descrevem o uso para perder os três quilos que incomodam na foto, situação em que o risco deixa de ser compensado pelo benefício.
O que precisa vir junto
Quando conduzo um tratamento com essas medicações, três coisas caminham lado a lado com a receita:
- Proteína suficiente e treino de força, para proteger a massa muscular durante a perda de peso.
- Acompanhamento dos sintomas digestivos, com ajuste de ritmo de dose quando necessário. Passar mal não faz parte do tratamento.
- Avaliação periódica de exames e de composição corporal, para saber de onde o peso está saindo.
E existe uma quarta conversa, que prefiro ter antes de começar e não depois: por quanto tempo, e o que acontece quando parar.
Referências
Os estudos abaixo foram consultados na base PubMed. O link leva ao registro original de cada publicação.
- Wilding JPH, Batterham RL, Calanna S, et al. Once-Weekly Semaglutide in Adults with Overweight or Obesity. N Engl J Med. 2021;384(11):989-1002. doi:10.1056/NEJMoa2032183 PubMed 33567185
- Jastreboff AM, Aronne LJ, Ahmad NN, et al. Tirzepatide Once Weekly for the Treatment of Obesity. N Engl J Med. 2022;387(3):205-216. doi:10.1056/NEJMoa2206038 PubMed 35658024
- Tinsley GM, Heymsfield SB. Fundamental Body Composition Principles Provide Context for Fat-Free and Skeletal Muscle Loss With GLP-1 RA Treatments. J Endocr Soc. 2024;8(11):bvae164. doi:10.1210/jendso/bvae164 PubMed 39372917
Este conteúdo é educativo e não substitui a consulta médica. Nenhum tratamento deve ser iniciado, ajustado ou interrompido sem avaliação individual.
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