E quando eu parar? O que a ciência mostra sobre o reganho de peso
Os mesmos estudos que mostraram a perda de peso também acompanharam quem parou. O resultado incomoda, mas explica muita coisa, inclusive por que a culpa não é sua.
Por Dra. Sayure Shiramizu, CRM-SP 145.735 30 de julho de 2026 3 min de leitura
Em resumo
- Um ano após a retirada da semaglutida, os participantes recuperaram cerca de dois terços do peso que haviam perdido.
- No estudo de retirada da tirzepatida, quem trocou a medicação por placebo ganhou 14% do peso de volta em 52 semanas; quem continuou perdeu mais 5,5%.
- As melhoras de pressão, glicemia e colesterol acompanharam o peso e voltaram na direção do ponto de partida.
- Reganho depois da interrupção é comportamento esperado de doença crônica, não recaída moral.
A pergunta que quase ninguém faz antes de começar
Quase todo mundo pergunta quanto vai perder. Pouquíssima gente pergunta o que acontece depois, e essa é, disparado, a pergunta mais importante do tratamento.
Ela tem resposta científica. Os mesmos estudos que mediram a perda de peso continuaram acompanhando os participantes depois que a medicação foi retirada.
O que aconteceu quando a medicação foi retirada
Na extensão do estudo STEP 1, 327 participantes foram acompanhados por mais um ano após o fim do tratamento com semaglutida. Durante o tratamento, a perda média havia sido de 17,3% do peso. Um ano depois da interrupção, tanto da medicação quanto do programa de estilo de vida, eles haviam recuperado 11,6 pontos percentuais. Sobrou uma perda líquida de 5,6%.
O estudo SURMOUNT-4 testou isso de forma ainda mais direta com tirzepatida. Todos os participantes usaram a medicação por 36 semanas e perderam, em média, 20,9% do peso. Em seguida, foram sorteados para continuar ou trocar por placebo, sem saber qual receberam. Nas 52 semanas seguintes, quem continuou perdeu mais 5,5%. Quem parou ganhou 14% de volta.
E não foi só o peso. Pressão arterial, glicemia e perfil de colesterol, que haviam melhorado junto com a perda, voltaram na direção do ponto de partida.
Isso significa que a medicação não funciona?
Significa o contrário. Significa que ela funciona enquanto está sendo usada, exatamente como acontece com o remédio de pressão e com o de colesterol. Ninguém acha estranho que a pressão suba de novo quando o anti-hipertensivo é suspenso.
A obesidade tem esse mesmo comportamento. Quando o peso cai, o corpo responde com fome maior, saciedade menor e gasto energético reduzido. É um sistema de defesa que existe há milhares de anos e que não sabe distinguir dieta de escassez. A medicação atua justamente sobre esses sinais. Retirada a medicação, os sinais voltam.
Por isso eu insisto: reganho de peso depois de interromper um tratamento não é recaída moral. É a doença fazendo o que doença crônica faz quando o tratamento para.
O que muda quando existe um plano de saída
Saber disso desde o início muda todo o planejamento. A conversa deixa de ser "quanto tempo até eu poder parar" e passa a ser "como construímos a fase de manutenção".
Na prática, isso costuma envolver:
- Construir massa muscular e força durante a fase de perda, e não depois, porque músculo é o que sustenta o gasto energético lá na frente.
- Ajustar a dose para a menor que mantenha o resultado, em vez de simplesmente suspender.
- Tratar em paralelo o que também empurra o peso para cima: sono ruim, estresse crônico, compulsão alimentar, alterações hormonais.
- Combinar o que vamos fazer se o peso voltar a subir, antes que ele suba.
Se você já parou e o peso voltou
Você não fracassou, e recomeçar não é sinal de fraqueza. É sinal de que a condição é crônica e precisa de acompanhamento contínuo, como qualquer outra.
O que eu avalio nesses casos é o que ficou de fora do plano na primeira vez: massa muscular preservada ou perdida, o que aconteceu com o sono e com a rotina, se houve uma fase de manutenção estruturada ou uma parada abrupta. Quase sempre há um ponto claro para ajustar, e ele raramente é força de vontade.
Referências
Os estudos abaixo foram consultados na base PubMed. O link leva ao registro original de cada publicação.
- Wilding JPH, Batterham RL, Davies M, et al. Weight regain and cardiometabolic effects after withdrawal of semaglutide: The STEP 1 trial extension. Diabetes Obes Metab. 2022;24(8):1553-1564. doi:10.1111/dom.14725 PubMed 35441470
- Aronne LJ, Sattar N, Horn DB, et al. Continued Treatment With Tirzepatide for Maintenance of Weight Reduction in Adults With Obesity: The SURMOUNT-4 Randomized Clinical Trial. JAMA. 2024;331(1):38-48. doi:10.1001/jama.2023.24945 PubMed 38078870
Este conteúdo é educativo e não substitui a consulta médica. Nenhum tratamento deve ser iniciado, ajustado ou interrompido sem avaliação individual.
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